A vitória do NÃO na Consulta Pública sobre o Pontal do Estaleiro
A Consulta Pública realizada neste domingo, dia 23 de agosto, em Porto Alegre, para decidir sobre edificações no Pontal do Estaleiro, na Orla do Guaíba, contou com a participação de 22.619 votantes, sendo 22.574 válidos, 22 nulos e 23 em branco.
A opção “NÃO” recebeu 18.212 votos (80,7% dos válidos), enquanto o “SIM” recebeu apenas 4.362 votantes (19,3%).
Na consulta pública, a população respondeu à seguinte pergunta: “Além da atividade comercial já autorizada pela Lei Complementar 470, de 2/1/2002, devem também ser permitidas edificações destinadas à atividade residencial na área da Orla do Guaíba onde se localiza o antigo Estaleiro Só?”.
Parabéns a todos os cidadãos e cidadãs porto-alegrenses que disseram “NÃO”. E a luta continua depois das urnas....
Além da atividade comercial já autorizada pela Lei Complementar nº 470, de 02/01/2002, devem também ser permitidas edificações destinadas à atividade residencial na área da Orla do Guaíba onde se localiza o antigo Estaleiro Só?
NÃO perca tempo. Faça tudo o que tens para fazer e, se for eleitor de Porto Alegre, NÃO deixe de votar NÃO na Consulta sobre a Orla do Guaíba.
NÃO esqueça de ver o Pôr-do-Sol na Orla do Guaíba. É muito lindo e ninguém pode tirar esse direito que Deus nos deu pela natureza.
A pergunta é: “Além da atividade comercial já autorizada pela Lei Complementar nº 470, de 02 de janeiro de 2002, devem também ser permitidas edificações destinadas à atividade residencial na área da Orla do Guaíba onde se localiza o antigo Estaleiro Só?”
Que a partir de 23 de agosto seja possível continuar a repetir o gesto de Jerônimo de Ornellas, o primeiro habitante do morro Santana, que frequentemente subia o alto do morro e, contemplando lá de cima a paisagem do Delta do Jacuí, dizia: “Eu VI-A-MÃO de Deus”.
A mão de Deus que está representada pelos cinco rios: Jacuí, Caí, Sinos, Gravataí e Taquari. Os cinco rios representam os cinco dedos da mão de Deus.
Leia a seguir o belo texto do Irmão Antônio Cechin, fundador da Pastoral da Ecologia.
A BELEZA DA ORLA DO GUAÍBA NÃO COMPORTA “ESPIGÕES”
Volta e meia ouvimos alguém falar assim: “As praias do Rio Grande do Sul começam em Santa Catarina”. Ou então outros mais sarcásticos - um deles é um notável articulista de jornal - todos os anos, por ocasião da enxurrada dos “hermanos” argentinos rumo ao norte do Mampituba, saem com essa: “As praias de Santa Catarina dão de goleada nas praias do Rio Grande do Sul”. Ledo engano!... A realidade é que nosso Rio Grande tem dois mares, o de dentro, também apelidado de Costa Doce, e o de fora. Santa Catarina só tem um, o de fora.
Um pescador de Tramandaí, provocado pelo estranhamento de um banhista pela linha reta sem reentrância de espécie alguma, em nosso litoral, começando a norte, no Mampituba, limite com Santa Catarina, e se estendendo até o Chuí, na fronteira-sul com o Uruguai, retruca assim
“Famílias da roça, quando realizam o sonho da casa própria, costumam convidar amigos e vizinhos para a “festa da cumieira”. A colocação do telhado significa que a façanha está chegando ao “gran finale”. Aliás o provérbio dos antigos também confirma esse comportamento quando diz: “o coroamento da obra acontece no fim!”. Em bom latim: “finis coronat opus!”
Quem por primeiro assim procedeu, foi o próprio Deus, o supremo arquiteto do universo. Ele fez o mundo em sete dias. O último contorno de praias que criou foi no litoral brasileiro. Um grande mutirão: Deus com os seus anjos.
Na manhã do sexto dia começaram na costa norte da Terra de Santa Cruz, hoje Brasil, com a Amazônia. Vieram descendo rumo ao sul, num capricho só: praias cheias de recortes com enseadas, penínsulas, cabos, golfos, promontórios, baías, montanhas, estuários, etc. etc. Parecia mesmo um artesanato de mulher rendeira à beira d’água. Pelas 12 horas desse último dia de trabalho, tinham chegado à foz do Mampituba, divisa com o nosso Estado.
Deus Pai Criador se voltou então para os anjos e falou: “Vou me recolher ao seio da Trindade a fim de decidir como e quem vamos colocar para habitar a casa que está ficando pronta”. Deixou um “trabalho de casa” para ocupar os anjos: fazer as praias do Rio Grande do Sul que ainda faltavam.
A confabulação entre Pai, Filho e Espírito Santo concluiu que as criaturas humanas – homem e mulher – seriam feitos à “imagem e semelhança” das três divinas pessoas que, de tanto se amarem formam a melhor Comunidade.
Nesse meio tempo, os anjos arregaçaram as mangas e fizeram esse “retão” de praia a contrastar com tudo que haviam feito antes em companhia do Criador do mundo.
Pelo meio da tarde Deus-Pai, depois de ter resolvido com as duas outras divinas pessoas, o jeito que teriam os moradores da Casa Terra, veio para junto de seus anjos para ver o serviço. Quando deparou com a imensa linha reta da costa, o Criador levou um susto.
- “Então toda uma semana em que trabalhamos juntos não foi suficiente para vocês aprenderem?!”
Os anjos ficaram tristes e até um deles ensaiou uma lágrima, mas Deus que é Amor, imediatamente atalhou: “Nada, nada grave! Agora, retomando nosso mutirão, vamos mostrar as maravilhas que somos capazes de fazer no interior do continente. Vamos fazer o mar de dentro.” Falou e imediatamente espalmou a mão sobre o “continente que é o Rio Grande”. A palma da mão divina é o Guaíba. Cada um dos cinco dedos são os cinco rios: Jacuí, Caí, Sinos, Gravataí e Taquari. Isso tudo, naturalmente ao lado de inúmeros arroios, cascatas, lagos, lagunas, a Lagoa dos índios Patos que é a maior da América, etc. etc.
Dizem até que Jerônimo de Ornellas, o primeiro habitante, do alto do morro Santana em que morava, contemplava, lá de cima o Delta do Jacuí e repetia sempre: Eu VI-A-MÃO de Deus. Expressão que depois passou a ser o nome do município lindeiro de Porto Alegre. .
Estava terminada a obra da Criação e a marca de Deus, - sua assinatura – é o Guaíba com os cinco dedos da mão se espraiando Rio Grande acima, em cujas margens vivem os dois terços de toda a população da nossa Terra querida, “defendida por Sepé”.
Será que saberemos preservar, a 23 de agosto, com o primeiro plebiscito de caráter ecológico de nossa história, as maravilhas da natureza com que Deus nos presenteou?...
Manifesto da Pastoral da Ecologia sobre o projeto do Pontal do Estaleiro e a Consulta Pública do dia 23 de agosto de 2009, em Porto Alegre.
“No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Gn 1,31). Pleno de amor e liberdade, durante o tempo que não sabemos calcular – simbolizado em sete dias no relato bíblico – Deus criou a vida, as mais diversas e infinitas formas de vida. E tudo nos foi dado, não para destruirmos, mas para cuidar e preservar.
Deus, o criador, o defensor da vida, continua sua obra criacional, protegendo e libertando a vida de tudo aquilo que possa lhe causar destruição. E para isso, Ele nos chamou a sermos seus companheiros, co-criadores da sua obra.
A história, no entanto, mostra o quanto nós humanos nos enganamos a nós próprios querendo ser os donos do mundo. Mas, Deus não nos deu o título de posse e propriedade do planeta Terra. Ele nos deu muito mais que isso, confiando-nos a missão de cuidar, zelar e preservar o mundo todo e toda a sua riqueza natural para garantir a vida em todas as gerações.
A Bíblia, numa bela poesia, relata que “a terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo... Deus disse: ‘Que exista a luz!’ E a luz começou a existir...” (Gn 1,2-3). E como pode, agora, alguém pretender esconder a luz do Sol em seu poente sobre as águas do Guaíba? Querem, por acaso, ser mais do que Deus que a todos deu a beleza do Pôr-do-Sol?
Deus criou conversando com sua criação, dialogando com sua obra de arte. Ele próprio reconheceu e pronunciou a beleza de cada coisa que criou. E assim, podemos dizer que, quando criou o Pôr-do-Sol do Guaíba, Deus proseava com a bela paisagem que criava, se admirando da beleza e sentindo a alegria de poder doar tal esplendor ao ser humano, a quem também confiou a missão de cuidar.
E agora, sem dialogar com ninguém, sem ao menos pedir licença, aqueles que pensam ser os ‘donos do mundo’ querem se apropriar da Orla do Guaíba, construindo prédios que servem de muros para esconder a paisagem. Querem privatizar a beleza que Deus nos deu. Querem privatizar uma obra de arte pintada pelas mãos de Deus. Mas, nós não vamos deixar.
É uma questão de fé, para nós cristãos, defender a natureza nas suas mais diversas formas de vida e garantir que todos possam ter acesso aos recursos e às paisagens naturais. Não podemos permitir nem nos omitir diante de planos e projetos que ferrem a integridade da criação de Deus. E assim, como Pastoral da Ecologia, nos manifestamos contra as obras da Orla do Guaíba, no Pontal do Estaleiro.
Em acordo com todos os motivos apresentados pela Frente do NÃO, nos motivamos também pela nossa fé. Compreendemos e alertamos que a concretização do projeto em questão, causará danosos impactos ambientais e problemas de acessibilidade da população. E, além de representar a privatização da Orla do Guaíba, o projeto vem sendo encaminhado de maneira não ética. Não podemos permitir tal agressão à vida. E, por motivos de caráter socioambientais e, em nome da fé, entendemos que é preciso dizer NÃO.
Como pastoral de Igreja, nos somamos a luta da sociedade civil, ONGs e Movimentos que se articulam e mobilizam militantes na campanha do voto NÃO na Consulta Pública do dia 23 de agosto, de 2009 em Porto Alegre. E convidamos nossos irmãos e irmãs na fé, nossos companheiros e companheiras de caminhada e todo o povo cristão a testemunhar a fé viva no Deus criador e defensor da vida.
Jesus recomendou no Evangelho: “Diga apenas sim, quando é sim; e não, quando é não” (Mt 5, 37). Agora, portanto, é hora de dizer NÃO.
Confira os locais de votação em nosso blog (www.pastoraldaecologia.blogspot.com), convide seus colegas, amigos e familiares e ajude a fortalecer o NÃO.
E assim, não vamos pecar nem por atos nem por omissão.
Pastoral da Ecologia – CNBB Sul 3 – Rio Grande do Sul